Monday, August 08, 2005

Cabo Verde e a Integração Europeia: A Construção Ideológica de um Espaço Imaginário

“Cabo Verde interessa à Europa não apenas pela valência da segurança e defesa, mas também, e antes disso, por ser a melhor expressão das sínteses culturais que a experiência euromundista produziu”. (Excerto da Petição pública a favor da adesão de Cabo Verde à União Europeia)
Com o presente artigo intitulado – Cabo Verde e a Integração Europeia: A Construção Ideológica de um Espaço Imaginário – pretendemos criticar a visão marcadamente catastrofista e fatalista subjacente à reivindicação de uma identidade africana primordial, na medida em que a emancipação política dos Estados no quadro do sistema internacional implica, necessariamente, a aposta numa multiplicidade de envolvimentos políticos e identitários susceptíveis de potenciar a integração de Cabo Verde num espaço de relacionamento político integrado como a União Europeia.
É com esse intuito que aspirámos estabelecer uma dissertação relativa à problemática da Integração de Cabo Verde na União Europeia e como é que a construção ideológica da ideia de Europa penetrou na consciência e na cultura política cabo-verdianas. Partindo do postulado basilar de que “o critério para a adesão é a identidade cultural” (Adriano Moreira), a reivindicação de um estatuto especial no quadro do enquadramento normativo e geopolítico da União Europeia constitui um argumento identitário (discurso legitimador) legítimo para potenciar a integração e a agregação de determinadas comunidades políticas ao espaço europeu?
O que é que faz com que Estados dotados de plena soberania reivindiquem a sua agregação em comunidades politicamente organizadas e com a propensão para uma acção performativa no quadro do sistema internacional?
Independentemente do facto da iniciativa política de requerer para Cabo Verde um estatuto especial no quadro do processo de integração no espaço comunitário europeu ter sido patrocinado e enfatizado no espaço público pelo Professor Adriano Moreira e pelo ex-Presidente da República Portuguesa Dr. Mário Soares, duas figuras insignes da política e da academia portuguesas respectivamente, essa diligência constitui uma ambição que se consolidou posteriormente ao processo de transição democrática com os sucessivos governos constitucionais.
A prossecução de uma diligência que potencie a integração de Cabo Verde enquanto Estado soberano no enquadramento geopolítico e estratégico europeu, não obstante os argumentos favoráveis e objecções ironicamente formuladas, assenta em critérios de natureza da herança histórica e cultural produzidas por uma experiência euromundista pragmaticamente formatadora de uma identidade.
Não obstante ao facto das estratégias de cooperação institucional do Estado de Cabo Verde privilegiar o multilateralismo e o ancoramento como domínio específico da sua política externa, o espaço comunitário Europeu sempre constituiu um centro político de referência para a formatação da cultura política cabo-verdiana.
Essa tentativa de desconstrução do discurso legitimador subjacente à centralidade conferida à dimensão cultural como via privilegiada para a construção ideológica e a potenciação da sua integração num espaço imaginariamente edificado comporta uma vertente eminentemente identitária.
É notório que uma potencial integração de Cabo Verde na União Europeia não pode, indubitavelmente, ignorar a dimensão atlântica do continente na medida essa deslocalização geográfica do eixo potencia progressivamente o alargamento da continentalidade europeia. Pese embora a exiguidade, a dispersão geográfica e a insularidade das ilhas de Cabo Verde, a cultura e a influência exogénea europeia esteve secularmente impregnada no imaginário e no ideário político do homem cabo-verdiano.
Não obstante a inexistência de recursos naturais e financeiros exequíveis para fazer face às adversidades e aos circunstancialismos internos, Cabo Verde teve historicamente um percurso de sucesso que o conferiu uma enorme credibilidade internacional comparativamente às suas congéneres Africanas.
Relativamente à acção diplomática e aos processos de identificação política que se inventariam no âmbito das estratégias de cooperação internacional cabo-verdiana, é de se verificar que o discurso e o ideário político que lhe estão subjacentes elegem o multilateralismo e o ancoramento enquanto domínio específico e estratégico da própria política externa, por forma a contrariar as adversidades e as vicissitudes internas que caracterizam indelevelmente uma forma de pensar, agir e sentir marcada pela insularidade.
Todas essas vicissitudes contribuíram indelevelmente para a prossecução de uma política externa que privilegiou pragmaticamente uma estratégia concomitantemente ancoral e multilateral.
A salvaguarda de um conjunto de valores universalmente reconhecidos tais como a consolidação de uma democracia estável e bem sucedida – uma transição pacífica e consensual de regime de partido único para o multipartidarismo – contribuiu peremptoriamente para a efectivação de uma vida cultural de realce e uma “massa crítica” susceptível de conduzir o país a estádios de desenvolvimento exemplares no continente.
A pluralidade de envolvimentos identitários assumidos por Cabo Verde (que moldou a própria configuração da sua política externa) contribuiu proficuamente para a formatação de uma psicologia étnica que conjuga uma identidade concomitantemente africana (por razões meramente geográficas) e europeia – resultantes das raízes histórico-culturais imputadas mimeticamente pela influência exogénea europeia, propiciando um estilo de vida equilibrado que projecta para o interior da estrutura política um sistema de valores que norteia o comportamento dos membros da sociedade, em direcção a uma estabilidade política susceptível de promover o instinto gregário no seio da comunidade política.


Suzano Costa
*Estudante de Ciência Política e Relações Internacionais (UNL)
Email:
suzanocosta@yahoo.com.br; slim_74@hotmail.com

Fonte: Artigo Publicado em Africanidade.com, Visãonews.com, Jornal A Semana

3 Comments:

At 8:33 AM, Anonymous Anonymous said...

Ao mesmo tempo, perguntar-se-á se foi obra do acaso a questão recentemente suscitada sobre uma possível adesão (ou parceria especial) de Cabo Verde à União Europeia. Muita polémica houve, com algumas opiniões discordantes a entrincheirarem-se em argumentos de excessiva emotividade e pendor nacionalista, às vezes até de feição racista, em vez de seguirem a via da análise lúcida e fria que outros preferiram. Um jovem estudante de relações internacionais, de nome Suzano Costa, foi das pessoas que me surpreenderam pela positiva ao redigir um artigo de grande lucidez e alcance intitulado “A CONSTRUÇÃO IDEOLÓGICA DE UM ESPAÇO IMAGINÁRIO”. Sem constrangimentos e preconceitos mentais de qualquer espécie, esse jovem tem condições para ir longe.
Adriano Lima Miranda

 
At 2:10 PM, Anonymous Pedro Santos said...

Tal como o Adriano Lima Miranda, gostaria de dizer que o artigo está muito bem escrito sobretudo pela qualidade e pela lucidez que revela na análise. Parabens jovem. Ve se continuas a escrever mais.

 
At 9:42 AM, Anonymous Anonymous said...

Continua com esta qualidade que vais longe.
António Gonçalves

 

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