Monday, August 08, 2005

Da Imaginação Politológica Cabo-verdiana

A assunção de um novo paradigma teórico no interior da abordagem politológica constitui uma consequência indelével do progresso nos esforços de compreensão e atenção ao real.
Essa tentativa secular de descodificar o discurso legitimador e as relações de poder, não visa pôr em causa a estrutura política e institucional dos estados, mas requer essencialmente melhorar e conceder um elemento de concomitante estabilidade e consistência às comunidades políticas legitimando a própria acção do Estado na imposição autoritária dos valores.
Não obstante ao carácter seminal subjacente ao desenvolvimento empírico da abordagem sobre as transições político-democráticas em Cabo Verde, os primeiros trabalhos – Aristides Lima (Reforma Política em Cabo Verde. Do Paternalismo à Modernização do Estado, 1992), de Humberto Cardoso (O Partido Único em Cabo Verde: Um Assalto à Esperança, Imprensa Nacional, 1993) e de Jorge Carlos Fonseca (O Sistema de Governo na Constituição Cabo-verdiana, 1990) citados anteriormente por Filinto Elísio in O novo paradigma de Roselma Évora – sobre o fenómeno político cabo-verdiano, assumiram uma conotação marcadamente ideológica e normativa.
Concomitantemente à crescente catalogação destas análises no mesmo paradigma teórico filiam-se, também, os livros de memórias, os testemunhos políticos e literários (Aristides Pereira, Uma Luta, Um Partido, Dois Países, Notícias Editorial, 2002; Pedro Martins, Testemunhos de Um Combatente, 1990; Eugénio Tavares, “Autonomia”, Alvorada, 1900), que tiveram uma importância desmedida na análise do fenómeno político cabo-verdiano porque espelham, indubitavelmente, o espectro dos mapas cognitivos e o modus operandi de uma elite política imbuída por valores revolucionários.
À imaginação politológica cabo-verdiana com a consequente assunção desse dilema normativo subjaz uma necessidade premente da confrontação dos processos de transição política e democrática, sob a égide dos modelos teóricos conferidos pela abordagem politológica contemporânea fruto da existência de uma pressão cultural para a sistematização das condições inerentes ao processo de modernização e democratização políticas das sociedades contemporâneas.
A abordagem em torno dos requisitos económicos e sociais para a institucionalização do regime democrático nos países africanos insurgiu tardiamente, comparativamente ao estudo da mesma problemática no contexto europeu levantando, no entanto, questões relativas à inadequação de algumas variáveis de caracterização.
No âmbito da dissertação sobre a cultura política e democratização no contexto dos sistemas políticos africanos, à “imaginação politológica” subjaz a persistência de uma questão não comummente salvaguardada pela análise politológica: será que as instituições e os modelos de acção política nos sistemas políticos africanos são necessariamente congruentes com a cultura política dessas nações? Qual foi o impacto da incipiente garantia dos requisitos económicos e sociais da democracia no capital social e na qualidade da democracia em África?
É importante salientar que a excessiva sofisticação metodológica e conceptual subjacente à “ambição comparativa global” – que dominou alguns segmentos do estudo comparativo das experiências democráticas –, crescentemente mitigada pela dificuldade em estabelecer as fronteiras entre o Estado e a sociedade civil, conduziu indelevelmente à acentuação da noção de sistema político “primitivo” nos países africanos.
O processo de democratização política bem como a consequente modernização das instituições e das estruturas políticas existentes, não se restringe meramente às transições político-democráticas perpetradas na medida em que é necessário todo um processo de “pedagogia política” subjacente ao background democrático. O recente trabalho “Cabo Verde – A Abertura Política e a Transição para a Democracia” que se deu à estampa por intermédio de uma edição da Spleen Edições é o resultado da emergência do paradigma da ciência política no contexto do fenómeno politológico cabo-verdiano e não reflexo de catalogações conjecturais.

Suzano Ferreira Costa
*Estudante de Ciência Política e Relações Internacionais (UNL)

Email: suzanocosta@yahoo.com.br/slim_74@hotmail.com
Fonte: Artigo Publicado no Jornal A Semana e Visão News.

1 Comments:

At 7:54 PM, Anonymous Anonymous said...

BOA NOITE
SAUDAÇÕES FRATERNAS A TODOS
SALVADOR – BAHIA – BRAZIL
CIDADE MATER DA CULTURA AFROBRASILEIRA
BLOG:artessoteropolis.blogspot.com

 

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