Thursday, September 08, 2005

Cabo Verde e a Construção de uma Identidade na Política Internacional

A reivindicação política da integração de Cabo Verde na União Europeia resulta fundamentalmente de processos de identificação política potenciados pela emergência de uma nova era nas relações internacionais que é precisamente a da construção de identidades na política internacional. (Veja-se, para o efeito, o artigo intitulado Cabo Verde e a Integração Europeia: A Construção Ideológica de um Espaço Imaginário)
Esses processos de identificação política e a pretensa aproximação cultural de Cabo Verde à Europa têm como substrato lógico a reivindicação de um argumento que se assenta, sobretudo, na construção de uma dinâmica de poder cujo centro político de referência se projecta por intermédio da cultura e o seu legado histórico: “a chave desta questão é a identidade cultural. É esse o critério de adesão. E nesse contexto, Cabo Verde também é Europa. Senão como justicar a entrada da Turquia na União Europeia?”.
A reivindicação de uma identidade cultural intrinsecamente reificada na “psicologia étnica” cabo-verdiana, patente na argumentação do Professor Adriano Moreira numa alusão aos laços históricos que unem cabo-verdianos e europeus, constitui um discurso legitimador por excelência susceptível de engendrar processos de identificação política que pululam largamente o imaginário do “povo das ilhas” e a sua consequente aproximação cultural ao espaço comunitário europeu.
Esse conjunto de argumentos acaba inevitavelmente por legitimar o facto das políticas da identidade assumirem uma enorme centralidade na actual configuração das relações internacionais, e consequentemente a ambição dos Estados se agregarem em comunidades politicamente organizadas no quadro do sistema internacional (União Europeia), mesmo quando à pertença a um espaço de relacionamento político integrado com benefícios e vantagens de natureza económica esteja subjacente um critério de condicionalidade política imposta aos seus membros.
Uma dimensão estruturante da construção das identidades na política internacional é a multiplicidade de envolvimentos que os Estados estabelecem, quando inseridos no quadro de um sistema internacional que privilegia a cooperação institucional para potenciar a integração regional, dando origem à emergência e afirmação do fenómeno da etnicidade enquanto instrumento de intervenção no cenário internacional e no sistema político de espaços politicamente integrados como a União Europeia.
A alusão à identidade cultural como o principal critério para potenciar a integração de Cabo Verde na actual configuração geopolítica da União Europeia enquanto espaço de relacionamento político integrado, representa fielmente a eventualidade da construção das identidades na política internacional ser apropriada e manipulada pelas comunidades políticas, sob a égide da reivindicação de uma identidade partilhada que se projecta culturalmente através do legado histórico introduzido pela influência exogénea da colonização europeia.
A aceitação cultural dos valores que norteiam a intervenção da União Europeia enquanto corporização de uma ideia no sistema internacional legitima a adesão de determinadas comunidades políticas a esse discurso e ideário político que se projectou cultural e historicamente.
O discurso legitimador subjacente à reivindicação da integração de Cabo Verde no espaço comunitário europeu assenta numa dimensão marcadamente identitária – o critério para a adesão é a identidade cultural – potenciada por valores simbólicos e laços históricos que aproximaram culturalmente Cabo Verde à Europa.
Esse posicionamento identitário que potencia a agregação das comunidades políticas em torno de valores simbólicos nos chama a atenção pela eventualidade desse discurso legitimador ser apropriado e manipulado por determinados Estados soberanos (inclusive Cabo Verde), independentemente dos limites territoriais que enformam a pertença a um espaço de relacionamento político integrado como a União Europeia, para legitimar a reivindicação de uma identidade política no quadro do sistema internacional.
O Estado de Cabo Verde enquanto nação soberana e autónoma revela política e culturalmente uma maior proximidade à Europa do que ao continente africano, devido à assumpção de um conjunto de valores universais susceptíveis de engendrar processos de identificação política com a União Europeia enquanto centro político de referência patente no ideário/imaginário político do homem cabo-verdiano. Mas essa alegada proximidade invocada pelos subscritores desse movimento não pode conduzir à subvalorização de uma identidade africana, recusando obstinadamente o relacionamento político com um continente do qual geograficamente pertencemos.
A vigência de um universo plurifacetado de valores simbolicamente imputados pela influência exogénea europeia na consciência e na cultura política cabo-verdianas tem induzido à subalternização de uma identidade africana, e consequentemente à reivindicação de uma identidade cultural europeia passível de promover a sua emancipação política.
O relacionamento político com Portugal enquanto parceiro estratégico do desenvolvimento de Cabo Verde constituiu secularmente uma realidade permanente e recorrente à prossecução da política externa cabo-verdiana.
Esta parceria estratégica entre Cabo Verde e o Estado português assenta sobretudo nos laços históricos e culturais que unem umbilicalmente as relações diplomáticas entre as duas nações, parceria essa que poderá ser extremamente profícua para a mobilização de esforços no sentido de potenciar a integração de Cabo Verde no espaço europeu embora as contradições entre os membros do Governo português sejam visíveis.
Apesar da persistência dos promotores desta diligência perante as autoridades políticas portuguesas a verdade é que as contradições que as mesmas posições patenteiam conferem à eventualidade da integração de Cabo Verde na União Europeia um carácter marcadamente utópico (um ideal realizável para aqueles que privilegiam o idealismo como filtro teórico para formatar a sua percepção do mundo, do qual o autor do presente artigo é defensor acérrimo). Mas como dizia o outro o sonho comanda a vida e “mesmo ‘as jangadas de pedra’ podem regressar aos cais de partida”. A ver vamos.

Suzano Costa
* Estudante de Ciência Política e Relações Internacionais (UNL)
Email: suzanocosta@yahoo.com.br; slim_74@hotmail.com
Fonte: Artigo Publicado na Revista Courrier Internacional (que reune "o melhor da imprensa mundial"), no Jornal A Semana e Africanidade.